Porque os desalinhados também têm coração

160 x 30 x 8 cm cada ancinho

3 ancinhos de ferro dispostos no espaço, carvão vegetal e carvão moído

De caminho às costas

Variable dimensions

Black ceramic

Púlpitp de Babel

25 x 27 x 5,6 cm

Black ceramic and charcoal

 

Porque os desalinhados também têm coração parte de uma reflexão quanto à noção ampla de cultura. Na ambivalência da palavra «cultura», toca-se na inevitabilidade do tempo de pousio, do tempo de rega, do tempo de cultivo e no tempo da colheita.

Assim, por exemplo, pousio não é, aqui, só entendido como o tempo de preparação da terra, mas como o tempo de paragem, de distância e de respiro requeridos na própria vida. Construções e ancinhos são tomados como corpos e vida, como corpos e percursos, como corpos e encontros ou desencontros. Estes corpos precisam de cultivar sendo, por isso, corpos que traçam, que deixam rastos, que deixam vestígios que marcam e que desaparecem. São pó com carne, pele e órgãos que perdem a carne, a pele e os órgãos.

Cerâmica negra, ferro e carvão são as matérias que corporizam um negro olhar – em nada com o peso da escuridão – sobre escolhas e sobre histórias que traçamos consciente como inconscientemente.

Num instante cruzamo-nos e perdemo-nos. Num instante o rumo traçado apaga-se na vagareza do horizonte. Neste enublado confuso, tu e eu somos um desalinho, dois corações desordeiros nos tempos interditos. Somos dois rasgos de avião carregados de cinza que se cruzam no povoado do céu.

Filipa Cruz
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