Imaginemos estar frente ao mar, não vendo o fim, e levantar-se em bicos dos pés para tentar ver mais longe. Imaginemos como imaginaram que o mundo acaba de repente, ou que nunca acaba, que avança sem fim e sem terra. Talvez se encontre um destino, talvez não se encontre nenhum. Ver como o azul da água se vai dissipando, misturando-se e confundindo-se com o azul do céu. Imaginemos o que é não saber distinguir o celeste do chão, nem saber, se o mar lhes pertence. Ver as tempestades das nuvens, nas terríficas ondas de azul escuro a espumar de raiva. Falar de barcas é falar de mar, e falar de mar é falar de céu. É pela água que os faraós sobem ao divino, é pela água que o barqueiro leva ao inferno, é entre águas que salta a Serpente arco-íris, é pela água onde Cristo caminha e é da água de onde brota a Vénus. Imaginemos uma frágil barca com finos ramos como remos, tão delicada e sensível a boiar como casca e a balançar pelo seu peso ao subir. Agora, avancemos ao indefinido. É loucura.
É neste espaço que Filipa Cruz, sob um pano de desconhecido e de indefinição encharcado de ar fino e salgado, reflete, a condição humana. 

Filipa Cruz
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